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Conferência: “O lugar da canção na constituição de um corpus literário no Brasil”

Fevereiro 19 @ 15:00 - 17:00

cartaz-19.02.19

No caso brasileiro, a inserção da canção nos estudos literários é, antes de tudo, uma estratégia política de formação do leitor e de construção de autoestima em relação à própria cultura. Mas não deixa de ser também uma opção de quem busca alguma coerência teórica e histórica em relação à proposta de um conceito mais amplo de literatura. Como estratégia política, significa reconhecer que parte significativa da tradição lírica no país se consolidou pela oralidade. Seja através da palavra falada ou cantada, é forte a circulação e mesmo a construção da expressão literária e poética em saraus, feiras, etc. A base desse facto poderia ser vista no histórico analfabetismo da maioria da população brasileira, mas parece mais produtivo localizá-la na elitização da palavra escrita. De fato, a quase inacessibilidade da literacia e da formação escolar, para significativa parcela de negros e pobres no Brasil, foi o que contribuiu tanto para a permanência do analfabetismo como para o afastamento das formas orais de literatura do cânone escolar. Isso permitiu que a ideia de literatura se restringisse à produção escrita. Ora, na medida em que o país vence o analfabetismo e que as propostas de inclusão, através de ações afirmativas, vão reconfigurando os valores e as relações sociais, insistir nessa restrição seria continuar com a perspetiva elitista, pois o saber literário estaria associado a uma forma de escolarização e de ascensão sociocultural. Para recorrer a uma dicotomia oswaldiana, a da escola e da floresta, através da qual o poeta modernista busca sintetizar elementos díspares da formação cultural brasileira, estaríamos insistindo apenas no lado da escola. Reconhecer a tradição oral, falada ou cantada, é uma forma de investir também no lado da floresta. E isso tem um alcance político muito significativo com relação à construção de uma autoestima nacional. Não é preciso esconder ou tratar como menor todo um saber popular que circula nos sambas, valsas e boleros cantados por avós ou pais, ou no funk e no rap das novas gerações.

Alexandre Graça Faria possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1998) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2003). Atualmente é professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora. É também ensaísta, poeta e ficcionista; autor dos livros Venta não (2013), Anacrônicas (2005), Literatura de subtração (2009); e organizador de Poesia e vida – anos 70 (2007), coorganizador de Outra – poesia reunida no sarau de Manguinhos (2013 – com Oswaldo Martins) e de Modos da margem – figurações da marginalidade na literatura brasileira (2015 – com João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura brasileira contemporânea, literatura brasileira, cultura e identidade, criação literária nas periferias urbanas.

Cartaz: Rui Silva

Detalhes

Data:
Fevereiro 19
Hora:
15:00 - 17:00
Evento Categoria:

Organizador

IEB, Materialidades da Literatura e CLP

Local

Sala do Instituto de Estudos Brasileiros
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Largo da Porta Férrea
Coimbra, 3004-530 Portugal
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